Escritor de livros infantis Paulo Netho
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Paulo Netho

Um poeta com muita poesia na cachola

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A mulher que não desliga
A mulher que não desliga

Publicada em 09/02/2023

De repente vejo-a parada bem à minha frente. Um metro e cinquenta centímetros de magreza. Olhar esgazeado, largo sorriso cariado, vestia uma puída calça de jeans, um chinelo de dedo verde desbotado e uma camisa de flanela xadrez, com as mangas arregaçadas. Às mãos, portava um pacote de carne de segunda para alimentar os seus cães: paguei só um real no açougue da Marselha. O dono do açougue costuma jogar fora os restos de carne, aí pedi para ele me vender. Foi bom, né? Iam para o lixo mesmo. O homem ganha um dinheiro e me ajuda a alimentar os meus bichos. Já avisei outras pessoas. Negócio bom para todo mundo.

Não tinha o menor pudor de revelar a um estranho os porões de sua alma. A minha vida é um livro aberto, não sou alegre nem sou triste, sou assim mesmo. Contou que todos os dias, sai de casa às cinco da manhã para deixar a filha no ponto de ônibus. A vida está muito perigosa, então vou junto. Depois, ando pelas ruas do bairro, saio aqui do Jaguaré sem destino, às vezes, vou para Pinheiros, Rio Pequeno, Vila Yara, onde me der vontade. Não tenho rumo certo, gosto de andar ver o tempo passar sem chateações.

Eu não durmo nunca. Minhas noites passo em claro. A televisão fica ligada que nem eu. Não prego o olho um minuto sequer. Nem presto atenção no que passa na tv. É que eu não tenho sono... Sabe, já morri duas vezes, mas voltei. Não gostei de morrer, não. Só não deixei de existir de vez, porque o Bili me salvou. O Bili? Era um vira-lata bem prestativo. Sempre que me via tendo um piripaque ele chamava alguém. Chamava mesmo. Ninguém acredita, mas esse cão trocou a saúde dele pela minha. Trocou sim. Depois que ele morreu nunca mais senti gripe, resfriado ou dor de cabeça.

Os cachorros são nossos melhores amigos, eles não pagam a gente com ingratidão como algumas pessoas fazem. Pra mim, o Bili não morreu, não. Ele está lá em casa. O espírito dele se mantém vivo só para cuidar de mim. Até o delegado e o padre sabem disso. O delegado e o padre me conhecem bem. Outro dia, o padre foi lá em casa porque eu queria que ele sentisse a presença do Bili, e assim que o santo homem entrou no quarto, o cão, bem bravo, já foi rosnando. O senhor ri, mas essa é a mais pura verdade, se está duvidando pergunte ao padre!

Nisso, aquele solilóquio foi interrompido quando um notívago atravessou a avenida questionando: O que o senhor vende aí? Respondi que vendia livros. Ah, essas coisas não me servem. E foi embora! Ao me virar, notei que a mulher já ia eclipsada na fumaceira dos carros, ônibus e caminhões que transitavam a movimentada avenida Presidente Altino, àquela hora.



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