Escritor de livros infantis Paulo Netho
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Quem é o

Paulo Netho

Um poeta com muita poesia na cachola

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Quem é o Paulo Netho
Geraldo Feliciano
Geraldo Feliciano

Publicada em 03/03/2023

Neste dia eu me lembro da pessoa mais nada "fofinha" que conheci nessa vida. Falo do meu pai, o Geraldão.

Hoje ele completaria 88 anos de idade e queria muito que eu fosse bancário. Quando lhe disse que tal coisa seria impossível porque eu já havia despencado no reino das palavras, o velho quase teve um treco e saiu espumando pelo quintal e pisando pesado enquanto repetia: “Puéta! Puéta! Puéta!”

Onde já se viu alguém dizer ao pai que vai viver de poesia em pleno ano de 1983. Na cabeça do Geraldão alguém que dissesse uma insanidade dessas só poderia ser um vagabundo. E por causa dessa minha decisão, durante a minha adolescência, muitas vezes discutimos até o dia em que lancei o livro Poesiase e vendi, só naquela noite, quase 300 livros. Claro que reservei uma bela quantia dessas vendas e assim que cheguei em casa botei a grana na mão do velho que arregalou os olhos, e me perguntou: O que é isso? E eu lhe disse: é das vendas dos meus livros. Depois desse dia o Geraldão passou a respeitar o puéta.

Claro que nos desentendemos muitas outras vezes, mas nunca me esqueci que ele era o meu pai e eu o seu filho. A gente se desentendia, mas a gente se amava também, cada um à sua maneira.

Quando o meu pai começou a ficar doente, passei a acompanhá-lo em cada ida ao médico e nessas idas e vindas enxerguei o meu velho com outros olhos e até mesmo achava graça dos nomes feios que ele soltava dentro de casa para desespero da minha mãe. Nunca soube o que significava “cachorro da moléstia” e outras tantas expressões proferidas por ele. Tudo da boca pra fora, sem ciência.

O meu pai já tinha se aposentado e sempre que eu chegava na casa dele, ele estava sentado sobre aquela caixinha d’água, sem camisa, pernas cruzadas e fumando o seu Continental sem filtro enquanto cumprimentava um e outro que passava na rua.

A caixinha d´água era um dos cantinhos favorito dele pela casa. Ele tinha manias: meu prato fundo, minha colher, minha cadeira, minha casa. Na hora do Jornal Nacional, ele saia da lavanderia arrastando a cadeira, e diante da tevê se postava, todo sério. Ninguém podia dar um pio. Sim, o Geraldão gostava de notícia, achava que assim se instruía e, dia após dia, ano após ano, acompanhou Cid Moreia, Sérgio Chapelin, Fátima Bernardes e William Bonner entre tantos outros dando as notícias do Brasil e do mundo.

São quase três anos desde que o Geraldão virou hipótese, mas a sua presença é marcante. Nunca me esqueço da vontade que o meu pai tinha em dominar uma frase, ele mal sabia escrever o nome dele. Depois de velho, ele foi estudar na FIEO, em Osasco. Chegava em casa todo orgulhoso do professor, o seu Ricardo Dias, e ia direto para o quartinho, pegava um caderno universitário e passava bons minutos garrachando, da primeira a última linha pautada do caderno, o seu nome Geraldo Feliciano Barbosa.

Claro que essas coisas me comovem pra caramba e sempre que posso procuro um jeito de falar tanto da minha mãe quanto do meu pai no meu trabalho.

Então deixo aqui três poemas em que reverencio o meu velho que queria me ver bancário, mas teve de se contentar com o puéta que me tornei. Lá vai: Sempre digo para as crianças que o meu nome é Paulo Netho, porque o nome do meu avô é Paulo Avô. E se o meu nome é Paulo Netho e o nome do meu avô é Paulo Avô, logo o nome do meu pais só pode ser... E as crianças gritam: Paulo Pai! Aí eu digo pra elas, que elas estão redondamente enganadas porque o nome do meu pai é Geraaaaaldo, mas isso é outra história.

Já esta poesia faz parte do livro Bolinho de chuva e outras miudezas. “O Aldo passou um pito geral/ e deixou o Geraldo desconjuntado./O Geraldo ficou gelado,/ olhou de lado e pensou:/ “Esse Aldo é um coitaldo!” O Aldo achou que o Geraldo/ tinha pago o maior mico,/ mas mico geral/ quem pagou foi o Aldo:/ saiu dali atordoaldo!”

Não contente, fiz mais esta poesia para o Geraldão intitulada “Vovonhês” entrou no livro Conversinhas: “O vovô do Guilherme/ fala um tal de vovonhês./ Lá da cozinha, ele grita/ chamando o moleque:/ —Vem pra cá, Guiguerme!/ Vem comer naininha!/ Também tem çãnzinha!/ Mas o menino implica:/ —Ah, çãnzinha de novo!/ Não tem sissicha com ovo?”

E para terminar este longo post, nunca me esqueço dessa imagem que faz parte do livro Alhures e Bulhufas – Uma centena de poemas para a infância, livro que vai sair ainda este ano: “Nas teclas deste velho piano/ eu me sinto como meu velho pai/ garranchando Geraldo Feliciano”.

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