Escritor de livros infantis Paulo Netho
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Outros pais que a vida me deu
Outros pais que a vida me deu

Publicada em 08/03/2023

Certa vez escreveu Rilke: "se não há nenhuma comunhão entre os homens e o Senhor, procure estar próximo das coisas que não lhe abandonarão; (...) tudo ainda é pleno de acontecimentos."

No último post falei do meu pai, mas fora de casa a gente sempre encontra outros “pais” nos pais dos amigos que fazemos durante a nossa jornada.

Quando morei em Londrina-PR, graças ao Joel Queiroga, conheci o seu Clério, pai do Marquinhos e do Bernardo Pellegrini. O homem era uma espécie de silêncio em movimento. Nunca me esqueço da casa dele, parecia uma casa que o tempo abraçou e não largou mais. O quintal ainda tinha árvores frutíferas e um balanço esquecido.

Todo sereno, ele passava café. Aquele cheiro e aquela fumaça, a mesa posta, a prosa farta. Depois de saborearmos o café preparado com tanto carinho, a gente se levantava e ia para a sala de assoalho antigo de madeira, uma sala grande e vazia; nela um toca CD. A música era uma das paixões do seu Clério.

Ele colocou pra tocar João Pacífico. Ouvimos “Cabocla Tereza”, mas quando o João Pacífico começou a recitar um poema para a canção “Chico Mulato”, o pai dos meus amigos, religiosa e respeitosamente calou-se em reverência ao matuto, mestre da toada, como diria Rolando Boldrin: "O Noel Rosa da música caipira, de verdade". Os olhos dele ficaram marejados. Nunca vi cena mais bela. Transe total.

Em Presidente Altino, o seu Calixto Silva foi outro desses pais que a vida me deu. Pai do Drausio, do Douglas e do Cláudio. Frequentei muito a casa deles, principalmente, durante a década 1980. Se o seu Clério era o silêncio em movimento, o professor e pastor Calixto era a alegria sem fim. Amante da música e das Letras, logo que notou o meu interesse por literatura, me contou sobre a sua paixão pelos cordéis e não demorou muito para me apresentar o folheto de Antônio Eugênio da Silva: "A história de Valdemar e Irene".

Claro que viramos amigos e como um pai, o seu Calixto torcia pelo meu sucesso. Uma vez, ele veio me contar, todo orgulhoso, que ouvira na rádio o poeta Álvaro Alves de Faria falar bem do meu livro "Bolinho de Chuva e outras miudezas". E até mesmo, quando já estava bem doente, fez questão de ir ao lançamento do "Conversinhas".

No bairro do Jaguaré em São Paulo conheci o paraibano José Marcelino, o seu Zé, era o pai do Sala, do Eldes e do Nata. Uma das pessoas mais originais que conheci. Ele sempre me recebeu de braços abertos. o Zezinho era um autêntico contador de histórias.

Assim que me via, solenemente me perguntava: “Como está o mister? E a patroa?” O Zezinho era dono de uma memória privilegiada. Comecei a falar um trecho da História de Valdemar e Irene, quando, para minha surpresa, ele continuou a recitar o folheto todinho, na íntegra. Perguntei se tinha lido, e qual não foi a minha surpresa quando o pai do Sala me disse que esta história ele ouviu muito na sua infância. Chegou a ele  pela voz dos cantadores do sertão paraibano e ficou gravada na sua memória. Coisa muito parecida aconteceu com o seu Calixto que também se apaixonou pelos cordéis através da oralidade sem nunca ter lido um folheto sequer.

Então, nesta padoca, enquanto degusto o fumegante café, essas lembranças me transportaram pelo tempo que faz as coisas voarem, sem lamento e sem arrependimento.

Sim, como disse Rilke: "tudo ainda é pleno de acontecimentos".



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