Escritor de livros infantis Paulo Netho
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Um presente da Marina Colasanti
Um presente da Marina Colasanti

Publicada em 13/11/2023

O ano era 2015 e eu estava feliz por participar da edição daquele ano do Festival Literário de Araxá -MG (FliAraxá). Foram tantos momentos legais, tantas pessoas legais, tantos encontros memoráveis. Durante o evento conheci algumas escritoras que jamais sonhei em conhecer, como a saudosa e inesquecível Nélida Piñon, a querida Mary Del Priore e a também iluminada, talentosa e amorosa Marina Colasanti.

Ainda na Van, que nos levava ao Grande Hotel onde nos hospedaríamos, disse a Marina, em tom de galhofa, que "ganhei muito dinheiro" recitando o poema dela Sexta-feira à noite. Ela ficou surpresa que um homem gostasse desse seu poema. Nestes dias, em que durou o FliAraxá, recitei e ganhei da Marina o melhor dos sorrisos e  a certeza de que a partir deste encontro ela passava a ser a minha mais nova amiga de infância.

Depois disso, trocamos alguns e-mails e próximo ao Natal lhe mandei uma mensagem desejando bons ventos e ela me respondeu dessa maneira: "Paulo querido, que bonita carta/mensagem/declaração a sua! Adorei isso de botar vento nas palavras, uma imagem perfeita de quem lhes dá voz! Amigo de infância querido, vamos ver se o ano próximo (que se avizinha cheio de nuvens escuras) nos dá de presente outros encontros e muita, muita fantasia. Esteja feliz com sua família no Natal, oh alma sorridente!, entre com seus dois pés direitos  2016. Marina."

Pois bem, eu já estava felizão da vida mesmo quando essa querida escritora, me mandou outra mensagem dizendo que tinha uma surpresa para mim no seu site. E assim no dia 24 de dezembro de 2015 chegou o presente da Marina, uma crônica lindíssima que eu pesquei no site dela e compartilho aqui com os novos e velhos amigos.

Histórias de Natal
Marina Manda Lembranças
quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Luiz descobriu a literatura numa cela-forte. Tinha sido preso pela primeira vez aos 19 anos, por assalto e homicídio. Começou pela Febem, depois por outras casas de detenção. Ao todo, ficou preso por 31 anos, com mais 10 meses de lambujem. E em algum ponto, numa cela forte, encontrou-se com a literatura. Não tinha livro nenhum na mão. Mas através do encanamento da privada que ligava a cela dele a outra, um preso contou-lhe a história do livro "Os miseráveis", de Victor Hugo.

"Ele me contou por capítulos, como novela, porque não dava para falar tudo de uma vez.- disse Luiz Alberto Mendes em uma entrevista à Folha -.Quando fui ler, achei desinteressante, perto do que ele contava."

É história parecida com outra que foi contada a Affonso, meu marido. Um homem estava internado no hospital há algum tempo. Melhorava lentamente, mas melhorava, e um dia sarou. Na sala dos médicos, aquele que o tratava comentou com um colega: "Dei alta hoje ao paciente do leito tal, mas ele me pediu para deixá-lo ficar mais uns dias, para poder acabar o livro que está lendo. Achei bonito". " Deve ser alguma mutreta pra comer de graça - respondeu o outro - O paciente tal não sabe ler, é analfabeto". No dia seguinte, chegando junto ao paciente, o médico o interpelou. A resposta foi simples. Quem lia era o companheiro da cama ao lado, que contava para ele . "Eu estou lendo na leitura dele", arrematou.

E porque é Natal, recebo do meu amigo Paulo Netho uma mensagem carinhosa em que me diz do seu gosto de "colocar vento" nas palavras. Paulo é um artista, um grande contador de histórias.

A qualquer momento, alguém põe vento nas palavras e elas se vão , adquirindo nova dimensão no imaginário de quem as recolhe.

Luiz achou "Os miseráveis" de Victor Hugo desinteressante quando, finalmente, o teve em mãos. Não surpreende. Os que leram essa obra prima literária sobre os sofrimentos de Jean Valjean, um egresso das galés, o fizeram sentados em poltronas ou largados em sofás ou camas, talvez uns poucos o tenham lido na condução.

Muito diferente terá sido recebê-lo através do encanamento de uma privada, acocorado a seu lado para não perder uma palavra da voz do irmão "miserável", narrador oculto pelas paredes da cela forte. Só a voz e um sofrimento tão semelhante ao das personagens ligava as duas celas.

A voz que lê em voz alta ou narra, põe outro elemento em cena. À história, às palavras, às intenções do autor da história, acrescentam-se as entonações e pausas do narrador, as suas vibrações vitais. Uma presença física transmite sua vitalidade a tantas presenças imaginadas. E o ouvinte recupera a emoção do seu primeiro aprendizado, quando, bebê ainda, a vida e seus elementos lhe eram narrados pela voz da mãe.

Hoje é véspera de Natal. Este ano, mais de um milhão de migrantes chegou à Europa, em fuga de conflitos, fome, pobreza e falta de oportunidades em seus países. A cifra do ano passado, que já era alta, foi quadruplicada.

Que histórias contarão esses migrantes a seus filhos? Nos séculos por vir - se é que ainda teremos séculos ou milênios à frente- a "grande migração" será modificada pelo vento das palavras e pelos descaminhos da memória. O símbolo tomará o lugar da realidade. E os jovens ouvirão as vozes dos mais velhos com o mesmo maravilhamento com que se escutam histórias nunca acontecidas.


https://www.marinacolasanti.com/2015/12/cronica-de-quinta-historias-de-natal.html




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